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O futuro do trabalho é o não-trabalho

26 de set de 2013

Acabei de ler esse texto e achei tão interessante o modo como o autor compara o jeito de trabalhar de hoje com o de antigamente, e sua maneira de enxergar o futuro do trabalho. O texto foi publicado na revista Dante Cultural.



“Ando trabalhando demais”. É bem possível que você se identifique com esse sentimento. Mas repare que, mesmo em dias sem tantas pendências profissionais, há uma mania de eficiência que transforma o tempo em um recurso difícil de usufruir sem culpa. Bem, é exatamente isso que o filósofo italiano Domenico de Masi quer que você tenha a mais: tempo livre. Uma ideia que pode causar algum estranhamento a princípio. Afinal, como pensar em tempo livre se é comum desejarmos justamente o oposto: um dia com mais horas, para produzirmos mais. É que para De Masi esse paradigma da eficiência – produzir o máximo possível, de preferência no menor intervalo de tempo – está ultrapassado, pertence ao século passado. Ele acredita que agora estamos no século do Ócio Criativo; título de um de seus livros.

Para sustentar sua tese, Domenico de Masi afirma que estamos vivendo um daqueles períodos históricos que marcam a transição entre duas Eras. A última vez em que isso aconteceu no mundo foi com a Revolução Industrial, que moldou essa mania de eficiência que temos hoje. Essa revolução teve início em 1850, na Inglaterra, onde diversas indústrias foram construídas no meio do caminho entre o campo e a cidade. Tinham que estar próximas tanto da matéria prima rural quanto do mercado urbano. E como as fábricas precisavam de gente para trabalhar, o governo inglês adotou políticas severas de desestímulo (e, em alguns casos, proibição) detrabalho nos campos, para atrair as pessoas às cidades. E, longe do campo, diante da impossibilidade de plantar, a única saída para ter o que comer era trabalhar no chão de fábrica em troca de algum dinheiro – os ingleses que se recusassem eram queimados a ferro e fogo em praça pública. Foi aí que o trabalho se estabeleceu como o meio de sobreviver na cidade – e deixou de estar ligado à expressão de um potencial ou vocação.

Para o filósofo italiano, carregamos uma porção de heranças desse período. Uma delas é o próprio conceito detrabalho, atrelado a sofrimento – aliás, se examinarmos a etimologia, trabalho vem de tripalium, um antigo instrumento de tortura. A outra é uma certa obsessão pela padronização. Para que tudo desse certo na linha de montagem, os trabalhadores precisavam atuar de maneira padronizada – talentos e vocações individuais eram qualidades indesejadas pelas grandes empresas, fato que se repete com alguma freqüência até hoje. E a terceira herança industrial que carregamos é a da segregação entre vida e trabalho. Os funcionários de uma fábrica, ao baterem cartão, viravam uma espécie de chave interna que determinava que, naquele momento, diversão e individualidade eram proibidos. Foco, silêncio e produtividade eram a ordem. A vida ficava para depois do expediente.

Acontece que a Revolução Industrial terminou. E, se naquela época a economia era totalmente lastreada pelos bens de consumo tangíveis, como ouro e petróleo, hoje vemos uma vertente de economia dos intangíveis, também chamada de economia criativa, onde os bens que circulam são serviços, informações, tecnologia e criatividade. É nessa transição que vivemos, diz De Masi. E para a economia dos intangíveis, a lógica do trabalho sofrido, da padronização e da segregação entre trabalho e diversão não interessam.

O filósofo italiano acredita que estamos moldando uma nova ordem mundial, e o Brasil terá um papel importantíssimo nessa história. Ele explica que os dois sistemas político-econômicos mais importantes do mundo ocidental – a social-democracia européia e o neo-liberalismo americano – atravessam uma severa crise porque não funcionam mais. Está na hora de criar um modelo novo, ele acredita. E, dentre as economias emergentes que mais crescem no mundo – Brasil, Russia, Índia, China e África do Sul – o Brasil é o país com menos conflitos étnicos e melhores relações diplomáticas. E, em sua última vinda ao país, esse ano, defendeu: somos um forte candidato a criar uma nova ordem mundial.

E como será essa nova ordem?

De Masi acredita que a resposta passa necessariamente pela reinvenção do modelo de trabalho. Se na lógica moldada pela revolução industrial havia apenas um caminho profissional correto a seguir – fazer uma boa faculdade, passar por alguns estágios até se estabelecer em uma grande empresa – agora há uma infinidade de caminhos possíveis. Em vez de brigar pelas vagas de emprego existentes, está na hora de inventar novos trabalhos. E a única maneira de fazer isso é deixar de buscar fora de si as respostas profissionais. É da conexão com os talentos e vocações internos e da compreensão de como eles podem ser expressados que nascem novos modelos de trabalho.

Se o filósofo italiano estiver certo, o trabalho deixará definitivamente de ser sinônimo de sofrimento, padronização e tédio. É possível afirmar, seguindo a lógica de Domenico De Masi, que o futuro do trabalho é o “não-trabalho”.

Fonte: http://cidadesparapessoas.com

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